sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Presidente elogia ousadia do ex-presidente Juscelino Kubitschek
Repórter da Agência Brasil
Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou hoje (12) durante o discurso em comemoração dos 106 anos do nascimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek, a ousadia e a nova forma de gestão política imposta pelo ex-presidente.
"Foi JK [Juscelino Kubitschek] quem conscientizou o país de que o desenvolvimento nacional é uma prerrogativa nacional intransferível de um povo, e sobretudo que com ousadia e planejamento é possível fazer do amanhã algo muito além de uma simples repetição do presente", afirmou o presidente.
O presidente Lula disse que foi o ex-presidente quem começou a desenvolver a indústria brasileira, trazendo fábricas de automóveis e refinarias de petróleo para o país.
O presidente lembrou que no fim da década de 50 fabricar carros no Brasil era uma ousadia reprovada pelos defensores da vocação agrícola nacional, que eram importados 90% do petróleo consumido, que praticamente não havia mão-de-obra qualificada e que o setor de crédito engatinhava.
"Hoje somos auto-suficientes em petróleo, 13.500 veículos saem das linhas de montagem por dia, mais de 300 mil brasileiros trabalham nas montadoras e no setor de autopeças. Do chão da fábrica também saiu um presidente da República, em mais uma evidência da semeadura generosa promovida pelo desassombro de JK", afirmou.
Lula destacou que uma das metas do Plano de Metas de JK dizia respeito ao aumento do frota naval. "A meta número 11 do Plano de Metas de Juscelino era a renovação da Marinha Mercante brasileira. A meta número 28, previa a implantação de uma indústria naval condizente com a nossa riqueza costeira e oceânica", lembrou.
O presidente também lembrou que na década de 70 o Brasil tinha a segunda maior indústria naval do mundo e só perdia para o Japão. Os estaleiros brasileiros empregavam quase 40 mil pessoas. Em 2003, disse Lula, essa indústria tinha 1.600 trabalhadores e agora conta novamente com 40 mil trabalhadores.
"Com a descoberta do petróleo [na camada pré-sal], nós certamente iremos ter mais do que os 40 mil trabalhadores que temos hoje, porque só de navios contratados pela Petrobras são 200, sondas serão inicialmente 38 e plataformas dezenas. Certamente Juscelino está sorrindo pelo que está acontecendo aqui", afirmou.
sábado, 12 de julho de 2008
Brizola e Lacerda jamais se falaram (Helio Fernandes - Trfibuna da Imprensa
Helio
Inspirado em teu artigo, quero lembrar que o destino colocou Brizola e Lacerda lado a lado na história brasileira; só faltou serem íntimos. Vamos ver: José Brizola, pai de Brizola (que morreu degolado), foi capitão dos provisórios de Leonel Rocha, caudilho maragato, na Revolução Federalista de 1923, que em 1924 deu apoio a Prestes, com homens e armas. Terminada a revolução, já em 1928, os líderes maragatos, tendo à frente Assis Brasil, fundaram o Partido Libertador, e Maurício de Lacerda, pai de Lacerda, foi um dos fundadores. Maurício seguia o ideário maragato, pelo qual o pai de Brizola morreu lutando.
Brizola e Lacerda "terçaram armas" na Câmara de Deputados em 1954, quando eleitos deputados federais: Lacerda começava a jurar a Constituição, quando Brizola interrompeu dizendo que era um juramento falso, porque ele estava pregando o golpe de Estado lá fora. Brizola exibiu a Tribuna da Imprensa, em que Lacerda defendia um estado de emergência; houve estupefação geral (Moniz Bandeira).
Atenciosamente,
Antonio Santos Aquino - Rio de Janeiro
Comentário e revelações
Lembro muito bem esse episódio em 31 de janeiro de 1955. Brizola já havia feito o juramento, quando Lacerda ia fazer o seu foi interrompido de forma agressiva e inédita. Mas não tiveram mais oportunidade de se relacionarem. Brizola foi logo para o Sul, nesse mesmo 1955, em 3 de outubro se elegeu prefeito de Porto Alegre. Não terminou o mandato, em 3 de outubro de 1958 era eleito governador do Estado.
Curiosamente derrotando a UDN e o PSD, que se aliavam sempre contra ele, que disputava pelo PTB. UDN e PSD tinham a intuição ou a certeza de que o homem a derrotar, de qualquer maneira, era Leonel Brizola. E acabaram tendo razão.
Ele e Lacerda continuavam distantes, mais geográfica do que ideológica ou administrativamente. Brizola assumiu o governo em janeiro de 1959, Lacerda em dezembro de 60. Os dois foram excelentes governadores. Em 3 de outubro de 1962, ainda governador do Rio Grande do Sul, Brizola se elegeu deputado federal pela Guanabara, governada por Lacerda.
Deixou o governo em 31 de janeiro de 1963, no mesmo dia assumia na Câmara. A partir daí a História é visível, não precisa ser contada. O golpe de 64 (um contra, o outro a favor) acabaria por destruir os dois, impedindo que chegassem a presidente. Brizola tinha enorme capacidade de "fazer amigos e inimigos". Antes de 64, candidato a presidente com o slogan "cunhado não é parente, Brizola para presidente". Ainda em 1963, tentou um acordo com Jango, que o nomearia ministro da Fazenda e o marechal Lott, ministro da Guerra, com o direito de vigiá-lo no Ministério da Fazenda para "que não fizesse loucura".
João Goulart até que não ficou totalmente contra, pediu tempo. Mas conversou com Roberto Marinho, que acabava de publicar na primeira página de "O Globo" o editorial "João Goulart, um estadista". Com base nisso, estando na companhia do embaixador Lincoln Gordon, e sentado na cama do presidente, disse a ele: "Se você (intimidade total) nomear o Brizola ministro da Fazenda, não termina o mandato". Goulart recuou, não nomeou Brizola e não terminou o mandato. Era melhor ter nomeado, não sei o que aconteceria, mas o Brasil não seria o mesmo.
Quando Carlos Lacerda foi a Montevidéu, levar o "Manifesto da Frente Ampla" para o ex-presidente assinar, conversaram demoradamente. Em determinado momento, Carlos Lacerda disse a João Goulart: "Tenho que ir embora pois vou a Atlântida (onde Brizola estava confinado, por ter feito declarações sobre o golpe de 64 e os generais brasileiros pediram ao Uruguai que o mandassem para o interior, o que foi feito) ver se o governador Brizola quer assinar o Manifesto".
Na volta, Carlos Lacerda me contou, ainda surpreendido: "Quando falei isso, João Goulart empurrou o papel para mim e disse, se esse senhor assinar eu não assino". Perguntei o que ele fez. Resposta: "Disse, presidente, se o senhor não quiser não procuramos a assinatura dele". E assim foi feito.
PS - Aproveitando uma carta ótima, recordei e contei acontecimentos inteiramente desconhecidos, até hoje não revelados.
PS 2 - Eu ia a Montevidéu com Lacerda, não consegui autorização para viajar. Se despedindo, Lacerda me disse: "Puxa, não queria ir sozinho, não por causa do Jango, nós somos políticos, vamos nos entender. Mas se Dona Maria Teresa aparece e me pergunta o que estou fazendo na sua casa? Não sei o que responder". Felizmente (para o encontro) Dona Maria Teresa não apareceu.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Amanhã, na Alerj, lançamento de livro sobre Brizola (Hélio Fernandes - Tribuna da Imprensa)
Lembro dele e de Lacerda
Amanhã, quinta-feira, às 4 da tarde, a Alerj, surpreendentemente, tem uma iniciativa produtiva, positiva e elucidativa. Lança livro que tem um título altamente original, sobre um dos personagens mais importantes do Rio e do Brasil nos últimos 50 anos.
O personagem, Leonel Brizola. Organizadora, Marieta de Moraes Ferreira. Título: "A força do povo, BRIZOLA, e o Rio de Janeiro". Lançamento às 4 da tarde na Alerj.
Justíssimo o registro e a homenagem, pois Brizola teve importância muito grande, já não mais no Distrito Federal, e sim no Estado da Guanabara. Em 1962, Brizola passou por aqui feito um furacão, se elegeu deputado federal com votação fantástica. De cada 10 eleitores, 4 votaram nele.
O governador era Carlos Lacerda, os dois, impensada e desastradamente inimigos, (mais do que adversários) não se encontraram nunca. Não perceberam que apesar das aparentes ou invisíveis divergências e diferenças, queriam a mesma coisa. Só que jamais puderam conversar e se entender.
Como fui grande amigo dos dois, posso dar um depoimento simples e sumário, mas decisivo para que se mostre como eram até solidários mas desconhecidos, os destinos de Brizola e Lacerda. Já escrevi uma vez e repito: "Gostaria de ver Lacerda ou Brizola na presidência da República". Mesmo que me decepcionassem, o País jamais seria o mesmo.
Citei Carlos Lacerda antes de Brizola, porque na história do Rio, Carlos Lacerda vem antes. E na minha história pessoal com os dois, a mesma coisa. Meus primeiros contatos com Lacerda começam em 1946 na Constituinte, e vão com ligeiras interrupções até 1968 no AI-5. O amaldiçoado texto que transformou um golpe de estado passageiro, numa ditadura permanente, cruel e autoritária. Só perdendo em tortura e selvageria para o Estado Novo "do ditador Getulio Vargas".
Presos juntos em 13 de dezembro de 1968, pude conhecer (e devergir) do desalento de Lacerda, e discutimos seriamente sobre sua decisão de abandonar a vida pública. O que aconteceu, apesar do meu protesto. Viajou a seguir, ficou na Europa até 1973, voltou, se enclausurou na Editora Nova Fronteira. E morreria inesperadamente em 1977, aos 63 anos de idade, quando já se viam, de longe, os sinais da ANISTIA, AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.
Essa anistia que não beneficiou Lacerda, trouxe Brizola para o Brasil em 1979. E por decisão dele mesmo, veio à Tribuna e me disse: "Fiz questão que a minha primeira visita ao voltar ao Brasil, fosse a você e a este jornal que eu não sei como pôde resistir tanto e tão bravamente".
(Em Montevidéu, quando Lacerda levou o Manifesto da Frente Ampla para João Goulart assinar, o ex-presidente perguntou: "O Helio Fernandes não vinha com o senhor?" Lacerda confirmou, mas disse que eu tive problemas para sair do Brasil. Resposta de João Goulart: "Todo dia, para as centenas de exilados, a satisfação é a chegada da Tribuna da Imprensa".)
Eu e Brizola estávamos conversando pela primeira vez, não por divergência e sim por circunstância. Brizola fez toda a carreira no Rio Grande do Sul, secretário, prefeito de Porto Alegre, governador. Quando veio para o plano nacional, o País já estava na derrocada do que chamam de "nova capital", não pudemos nos encontrar.
Mas a partir daquele dia, ficamos imediatamente amigos de infância. Conversamos longamente, não na mesma direção das conversas com Lacerda, mas com o mesmo entusiasmo e amor pela LIBERTAÇÃO do Brasil. Por isso louvo o livro que será lançado amanhã, esperando a hora do livro sobre Lacerda.
PS - Brizola "encampou" as empresas multinacionais de energia que roubaram o Rio Grande por quase 100 anos.
PS 2 - Lacerda fez o mesmo com a Light (e associadas), que roubou (a mesma palavra) o Distrito Federal e a Guanabara, pelo mesmo tempo. O que mostra que estavam muito pertos, só não se encontraram.
Aldo Rebelo
Há meses vem dizendo: "Não serei candidato a vice". Há meses venho dizendo: "Será candidato a vice de Dona Marta". Quem estava certo?
Aldo Rebelo jamais foi candidato a prefeito de São Paulo. Venho dizendo há muito tempo: "Ele quer ser vice de Dona Marta, é a única possibilidade de ocupar cargo executivo". (Foi presidente da Câmara, pelo fato de Severino Cavalcanti ter sido derrubado por corrupção.) Escrevi matéria ampla sobre o assunto, pelo menos há 10 dias. Agora o deputado do PC do B, vem a público.
Afirmação de Aldo Rebelo, hoje o número 3 na escala de ex-stalinistas: "Desisti de ser candidato a prefeito, serei vice de Marta". "Menas" verdade, afinal conseguiu o que pretendia.
No dia 12 de junho, escrevi aqui, e vou transcrever: "Em 2010 São Paulo terá um governador ex-stalinista, Alberto Goldman. E pode ter um prefeito da capital, também ex-stalinista, Aldo Rebelo".
Como é que eu podia adivinhar? E ainda concluí, desta maneira: "O fato deles serem ex-stalinistas não me assusta. O problema é que não disputaram eleição, assumirão cheios de aspas". Goldman está garantido. Falta Dona Marta vencer.
É inacreditável como Sérgio Cabral exibe satisfação quando está ao lado do presidente Lula. Sempre às gargalhadas, parece que o presidente é um humorista. Mais compostura não apenas administrativa, repercutiria bem. E na verdade, Sérgio não ganhou nada.
Amicíssimo de Sérgio Cabral, revelei aqui, com 48 horas de antecedência, que Marco Aurelio Bezerra de Mello, seria nomeado desembargador no "quinto constitucional". Foi, não dava para errar.
Ontem tomou posse, a mulher de Sérgio Cabral representou o governador que estava com Lula. O desembargador começou muito mal, as nomeações, desastrosas e até perigosas.
O competente deputado federal Otavio Leite (ex-vice do Rio) quis saber informação sobre obras do PAC numa favela.
O ministério recusou informar, a Caixa também. Para saber, tem que entrar com mandado de segurança, um absurdo. Mas não desiste.
O governador José Serra deu "início à campanha de Alckmin para prefeito". Na segunda e terça andou pela cidade, "visitando obras". Com o candidato do seu partido? Não, com o adversário Kassab. Ha! Ha! Ha!
E a Lei Eleitoral permite isso? Acabaram com a "infidelidade" partidária. E esse comportamento do governador, como é que se identifica?
O DEM será o último partido a fazer convenção no Rio. Só tem uma candidata, Solange Amaral, distante do segundo turno.
Rodrigo Maia vai dizer na convenção, "que impugnará a candidatura de Eduardo Paes". Segundo todos que examinam a questão, i-n-e-l-e-g-í-v-e-l.
O presidente está cada vez mais sorridente, satisfeito, feliz com ele mesmo. Vem até à inauguração da Bayer, uma das maiores exploradoras do Brasil. Pertenceu ao grupo Associado, com Chateaubriand ainda vivo. Era dirigida(?) por Leão Gondim de Oliveira.
Registrou um slogan realmente muito bom e popular, "se é Bayer é bom". Mas não tinha nada a ver com a realidade.
Enriqueceu explorando o povo e o País. E mais grave: o povão é que comprava seus produtos. Pela idade, Lula não sabe disso, devia se informar.
A propósito: aumentam violentamente as remessas de lucros das multinacionais-privatizadas-globalizadas. Enviam cada vez mais lucros, que são obtidos (e remetidos) quase sem taxação.
Nos EUA, qualquer remessa de lucros, deixa nos cofres do País, pelo menos 35 por cento. Na Bovespa (grande equívoco nacional) ganham FORTUNAS, sem pagar coisa alguma. Que República.
O senhor Benjamin Steinbruch e sua CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) são, pessoal e empresarialmente, os mais processados do Brasil. Têm DEZENAS DE MILHARES DE AÇÕES na Justiça, sempre condenados. (Mais de 9 mil ações.)
Por causa das denúncias feitas aqui, me processou, surpreendentemente o juiz deu ganho de causa a ele, bloqueou minha conta passando imediatamente o saldo para ele. Agora, condenado várias vezes foi chamado pela juíza Daniela Brandão Ferreira e pelo desembargador-relator Marcus Faver, de "LITIGANTE DE MÁ FÉ".
Com 200 páginas de documentos irrefutáveis e irrevogáveis, vou fazer a autópsia ética, moral, financeira e administrativa desse homem sem escrúpulos, e sem caráter, que a partir de um banquinho falido, se transformou numa potência financeira das mais arrogantes.
Meu único problema é espaço. É tanta bandalheira, PROVADA, que preciso saber como levo ao conhecimento do cidadão-contribuinte-eleitor, TODOS OS ILÍCITOS praticados diariamente por esse personagem. Vou desmascarar esse "Barão" até a Justiça.
XXX
Manchete exagerada e incorreta de "O Globo": "País já prende por lei seca e Rio ainda nem fiscaliza". Na verdade o que existe é uma "repressãozinha" sem a menor importância. A "lei seca" a que se refere o jornal, aconteceu nos EUA de 1919 a 1933. Foram 14 anos de subversão, corrupção e total gangsterismo.
Mas veio provar que o Poder tem forma de acabar com o que no Brasil se chama de "crime organizado". O banditismo dominou o País, bebia-se vertiginosamente, os gangsteres (Al Capone, o chefe) enriqueciam sem controle.
Franklin Delano Roosevelt assumiu a presidência em 5 de março de 1933, (era a data da posse, mudou várias vezes, agora é fixa em 20 de janeiro) mandou ao Congresso emenda constitucional, (acho que de número 20), acabou a "lei seca", todos podiam beber onde e quando quisessem, os bandidos morreram na cadeia, o país voltou à mais completa tranqüilidade. Mas houve fiscalização completa no trânsito.
No segundo mandato de Roosevelt, sua mulher Eleonora Roosevelt, ia de Georgetown, (onde trabalhava) para a Casa Branca (onde morava). Na Avenida Pensilvânia, adormeceu na direção. Era a mulher do presidente, ficou sem carteira por 1 ano, teve que fazer novo exame. Imaginem se tivesse bebido?
terça-feira, 22 de abril de 2008
A segunda guerra do Paraguai (Sebastião Nery)
- Dom Mário, estava precisando falar com o senhor. Pode passar aqui pela manhã, às cinco?
- Da manhã, presidente?
- Sim. Chego sempre ao palácio às cinco. É melhor para conversar.
- Presidente, em nome da amizade do Brasil com o Paraguai, essa conversa não podia ser às 11?
Podia. Foi às onze.
Stroessner
Mário Palmério, escrevendo seus poderosos romances e compondo belas guarânias ("Saudade" é uma das três músicas mais populares do Paraguai), fez da embaixada do Brasil em Assunção um refúgio de políticos e intelectuais da oposição. Uma tarde, chega à embaixada o então ministro do Exterior, Sapeña Pastor:
- Senhor embaixador dom Palmério, nosso país deseja e precisa manter as melhores relações possíveis com o Brasil. Mas o senhor tem aqui na embaixada, asilados, mais de 40 inimigos do regime, e isto está causando os maiores problemas para o governo. O senhor não podia tomar uma providência para ajudar meu ministério e nosso governo?
- Pois não, senhor ministro, já estou tomando. Vamos lá em cima, no segundo andar, para o senhor ver a beleza de apartamento que estou preparando para asilados de luxo.
- Mas esta é uma brincadeira de mau gosto.
- Não é não, senhor ministro. O general Stroessner, seu presidente, em outros tempos já foi hóspede da embaixada do Brasil. O senhor, em qualquer eventualidade, também pode contar conosco.
Sapeña Pastor saiu e nunca mais tocou no assunto. Quando foi derrubado, Stroessner fugiu para Brasília, onde viveu até morrer.
Jango
Nos fins de 1963, os jornalistas Murilo Marroquim e Benedito Coutinho, os dois mais antigos repórteres políticos de Brasília, foram chamados à Granja do Torto, residência oficial do presidente. Jango os esperava à beira da piscina, sozinho, serviu uísque aos dois:
- Vocês já estiveram na Rússia? (Murilo já, Benedito não). Pois se preparem os dois, que muito em breve iremos a Moscou. Olha, isso é inteiramente confidencial. Só quatro pessoas sabem disso: eu, o embaixador soviético e, agora, vocês.
Deu uma volta na piscina, pensando, voltou eufórico:
- Vamos construir a hidrelétrica de Sete Quedas (Itaipu).
- Com que recursos, presidente?
- São 12 milhões de quilowatts. Técnicos brasileiros e soviéticos. Três planos qüinqüenais. Financiamento russo a juros mínimos. Grandes exportações de produtos agrícolas brasileiros para a União Soviética, para facilitar o pagamento. Só os russos possuem, hoje, turbinas para o porte de Sete Quedas. Já sondei o Stroessner. A energia ociosa do Paraguai será comprada por nós. O embaixador soviético me disse que seu país não tem o menor interesse em disputar o mercado ocidental. Interessam-lhe grandes obras, como as de Assuã, no Egito.
União Soviética
Os dois ouviam, espantados, Jango sorriu:
- Vocês não acreditam? Tem mais. O plano global inclui a ligação do Amazonas ao Prata. Vamos realizar o velho sonho brasileiro.
Murilo Marroquim, com sua sabedoria pernambucana, interrompeu:
- Presidente, o plano é maravilhoso, mas o senhor não vai executar. É uma obra monumental, mas é uma obra política. A Rússia não fará uma Assuã na América Latina, porque os Estados Unidos não vão deixar.
- Somos um país livre, independente. Contarei com o apoio das Forças Armadas para resistir a qualquer pressão e contarei com o povo.
Três meses depois, Jango era derrubado.
Itaipu
Domingo, no "Globo", a banqueira Miriam Leitão, que entende mais de negócios americanos do que a Hilary, Obama e McCain juntos, lembrou:
1 - "Itaipu foi construída (no governo Geisel) com endividamento, os juros subiram muito no exterior, a dívida virou uma bola de neve, a empresa pagou uma grande parte, mas ainda há dívida até o ano 2023. A maior parte da receita da usina é para pagar a dívida. Por isso, o Paraguai recebe um valor por megawatt que considera menor do que merece".
2 - "O atual presidente Nicanor Duarte já tentou fazer mudanças no contrato de Itaipu, mas não foram aceitas pelo Brasil. Essa é uma história longa, que se resume no seguinte: Itaipu produz 14 mil MW de energia, dos quais cada país tem direito à metade. O Paraguai só precisa de uma pequena parte. Assim, vende o resto para o Brasil".
3 - "Hoje, o Paraguai recebe, líquido, US$ 350 milhões. Fernando Lugo (o candidato vitorioso, que era bispo, bispo verdadeiro, não fajuto, como o Crivella) acha que deveria ser, pelo menos, US$ 1,8 bilhão. A relação com o Paraguai nesse início do século XXI será desafiadora".
Vem aí a segunda guerra do Paraguai? Falta Caxias.
sábado, 5 de abril de 2008
Lacerda: Jogaram o povo contra o Exército e o Exército contra o povo
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Documento aponta que Jango era vigiado no exílio
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| Sábado, 16 de Fevereiro de 2008 | 07:03Hs | |
| | Redação |
| Documentos da polícia e do Exército uruguaio comprovam que o presidente João Goulart era vigiado no país vizinho durante o exílio. Segundo documento do Departamento de Inteligência do Exército, ao qual o jornal Folha de S. Paulo teve acesso, Jango aparece em uma lista com outros seis brasileiros, por ser considerado subversivo. | |
sábado, 2 de fevereiro de 2008
No silêncio da noite (Sebastião Nery)
RECIFE - De repente, no silêncio da noite, como na canção de Peninha cantada por Caetano, voando sobre o Atlântico, já próximo de Pernambuco, ele acordou com a voz do comandante, falando em espanhol:
- Atenção, por favor, senhores passageiros. Os fortes ventos que estamos enfrentando nos obrigam a fazer uma escala técnica em Recife, para recarregar o combustível. A demora no aeroporto será de aproximadamente 45 minutos. Obrigado.
Ele percebe o perigo e diz ao jornalista uruguaio Jorge
Otero, seu companheiro de viagem e vizinho de poltrona:
- Estou proibido de entrar em território brasileiro. Comprei esta passagem da Aerolineas Argentinas com o compromisso de não fazer uma só escala. Então, que o avião retorne à Europa.
E foram os dois à cabine falar com o comandante. Um comisssário de bordo tentou impedir. Mas, afinal, o comandante saiu e o ouviu:
- Sou o ex-presidente João Goulart, do Brasil. Estou como asilado na Argentina. (Era no Uruguai, mas vivia mais na Argentina.) Se o avião descer no Brasil, serei preso. O senhor deve devolver-me à Europa ou levar-me aonde quiser, a qualquer lugar, menos no Brasil.
Jango
O comandante estava "rígido e surpreso, com burocrática energia":
- É impossível atendê-lo. Os ventos frontais foram muito superiores aos previstos e por isso gastamos muito mais gasolina do que habitualmente. Quando o senhor comprou a passagem, tinha que saber das escalas assinaladas para uma emergência. Recife é o aeroporto mais perto.
- Mas, comandante, ninguém me avisou nada. Serei retirado do avião e preso. E o senhor será o responsável.
- Senhor, não entrará ninguém no avião. A esta hora só está acordado o responsável pela torre de controle, que vai chamar o pessoal do abastecimento. Não há ninguém no aeroporto.
- Desculpe, comandante. Mas meu nome está na lista de passageiros, que o senhor deverá entregar. Será só questão de minutos que venham do quartel e me levem preso. Contra mim, foi decretada uma ordem de prisão pela ditadura brasileira. Não posso entrar no Brasil, porque serei preso.
- Senhor, este é um avião argentino, sob meu comando. Não permitirei a ninguém que leve nenhum dos passageiros sob minha responsabilidade. Estamos em território argentino.
- Comandante, esta é uma aeronave civil. O senhor não vai poder fazer nada quando um punhado de soldados entrar aqui.
A responsabilidade por isso, que surpreenderá o mundo, será exclusivamente do senhor.
- Vou ver o que posso fazer, mas não alimentem muitas esperanças.
Recife, não
E voltou para a cabine. Jango e seu amigo, para os lugares deles. O jornalista uruguaio tentou aliviar a tensão de Jango:
- Presidente, o senhor me disse que em Madri comprou a passagem em nome de Belchior Marques. Talvez não se dêem conta de quem é.
- É possível, Jorge. Mas o chefe da guarnição militar de Recife foi promovido por mim. Tem que saber quem é o passageiro Belchior Marques
O tempo vai passando e nada. De repente, a voz do comandante:
- Atenção, por favor. Aqui fala o comandante. Quero informar que os cálculos do combustível que resta e a sensível melhora nos ventos tornam desnecessário descer em Recife. O vôo será sem escalas até Buenos Aires.
Jango, afinal, voltou a dormir. Era 12 de outubro de 76.
Juscelino
Esta história está no livro "João Goulart, recuerdos em su exílio uruguaio" (Ediciones la Plaza), de Jorge Otero, veterano jornalista de Montevidéu, ex-diretor do "El Dia". Encontraram-se em Paris e embarcado nas Aerolineas Argentinas direto para Buenos Aires.
Jango, proibido de entrar no Brasil e sem passaporte brasileiro, que a ditadura lhe tomara, viajava com passaporte do Paraguai. Hospedado no Hotel Claridge (Champs Élysées, 72), onde dias antes o encontrei, estava assustado com as macabras notícias da "Operação Condor" no Cone Sul (as ditaduras chilena, brasileira, argentina e uruguaia haviam planejado matar seus principais adversários) e sobretudo com o assassinato do general boliviano Juan José Torres, em Buenos Aires, e a misteriosa morte de Juscelino dois meses antes: 22 de agosto de 76.
Decidiu arrumar seus negócios no Uruguai e Argentina e voltar para morar em Paris e ficar mais perto dos filhos, que estudavam em Londres.
Geisel
Menos de dois meses depois, em 6 de dezembro de 76, Jango apareceu morto em sua fazenda em Mercedes, na Argentina. No fim do ano passado, o uruguaio Mario Neira Barreiro, ex-agente do serviço secreto da ditadura uruguaia, preso por assalto no Rio Grande do Sul, revelou a João Vicente, filho de Jango, e agora a Simone Iglesias, da "Folha", que "durante quatro anos espionou Jango e ele morreu envenenado, por autorização do ex-presidente Geisel ao delegado Sergio Fleury, numa operação financiada pela CIA, com cápsulas envenenadas misturadas a remédios que tomava".
O corpo foi trazido para São Borja sob as ordens de militares brasileiros, com o caixão lacrado e impedido qualquer tipo de autópsia.
http://www.tribunadaimprensa.com.br/anteriores/ontem/coluna.asp?coluna=nery